A Vida Divina – Sri Aurobindo
Livro II – Parte 2

 

Capítulo XV (Trecho)

Capítulo XVII (Trecho)

Capítulo XVIII (Trecho)

Capítulo XIX (Trecho)

Capítulo XXVIII (Trecho)

 

Capítulo XV (Trecho)

A Realidade e o Conhecimento Integral

“Este Si deve ser conquistado pela Verdade
e por meio de um conhecimento integral.”
  Mundaka Upanishad, III.1.5

Um conhecimento integral demanda a exploração, o desvelamento de todos os domínios possíveis da consciência e da experiência. Pois existem domínios subjetivos de nosso ser que se estendem por trás da superfície aparente; eles precisam ser esquadrinhados, e o que quer que seja descoberto, deve ser admitido dentro do âmbito da realidade total. Uma extensão interior de experiência espiritual é um domínio muito vasto da consciência humana; é preciso penetrar ali até suas mais fundas profundezas e seus mais vastos alcances. O suprafísico é tão real quanto o físico; conhecê-lo é parte de um conhecimento completo. O conhecimento do suprafísico tem sido associado ao misticismo e ao ocultismo, e este último tem sido banido como uma superstição e um erro fantástico. Porém, o oculto é uma parte da existência; um ocultismo verdadeiro significa nada menos que uma investigação das realidades suprafísicas e a descoberta das leis ocultas do ser e da natureza, de tudo o que não é evidente na superfície. Ele pretende fazer a descoberta das leis secretas da mente e da energia mental, da vida e da energia vital, do físico sutil e de suas energias – tudo o que a natureza não colocou em operação visível na superfície; ele busca também a aplicação dessas verdades e poderes ocultos da natureza a fim de estender o domínio do espírito humano além das operações ordinárias da mente, da vida e da existência física. No domínio espiritual, que é oculto para a mente de superfície na medida em que ultrapasse a experiência normal e adentre a supranormal, torna-se possível não apenas a descoberta do Si e do espírito, mas a descoberta da luz da consciência espiritual que eleva, ilumina e orienta, e do poder do espírito, do modo espiritual de conhecimento e do modo espiritual de ação. Conhecer tais coisas e trazer suas verdades e forças para a vida da humanidade é uma parte necessária de sua evolução. A própria ciência é, a seu modo, uma forma de ocultismo; pois ela traz à luz as fórmulas que a natureza ocultou, e utiliza seu conhecimento para liberar as operações de suas energias, as quais não foram incluídas pela natureza em suas operações normais, e para organizar e pôr a serviço do homem seus poderes e processos ocultos, como um vasto sistema de magia física – pois não há nem pode haver outra magia que não seja a utilização das verdades secretas do ser, dos poderes e processos secretos da natureza. Pode inclusive vir a ser descoberto que o conhecimento suprafísico é necessário para completar o conhecimento físico, porque os processos da natureza física possuem por trás de si um fator suprafísico, um poder e uma ação mental, vital ou espiritual, que não é tangível a nenhum meio externo de conhecimento.
Toda insistência na validade única ou fundamental da realidade objetiva apóia-se na percepção da realidade básica da matéria. Agora, porém, é evidente que a matéria não é de modo algum fundamentalmente real; é uma estrutura de energia: está até mesmo sendo posto em dúvida se os atos e as criações dessa mesma energia são explicáveis exceto como os movimentos de poder de uma mente ou consciência secreta, da qual os processos e estágios estruturais são as fórmulas. Portanto, já não é mais possível considerar a matéria como a única realidade. A interpretação material da existência foi o resultado de uma concentração exclusiva, da preocupação com um único movimento da existência, e tal concentração exclusiva tem sua utilidade e é, portanto, permissível; em tempos recentes ela se justificou pelas imensas e inumeráveis descobertas minuciosas da ciência física. Mas, uma solução do problema da existência em sua totalidade não pode ser baseada num conhecimento exclusivo e unilateral; devemos conhecer não apenas o que é a matéria e quais os seus processos, mas o que são a mente e a vida e quais os seus processos, bem como a alma e o espírito e tudo o que se encontra por trás da superfície material: só então poderemos ter um conhecimento suficientemente integral para uma solução do problema. Pela mesma razão, aqueles pontos de vista da existência que nascem de uma preocupação exclusiva ou predominante com a mente ou com a vida, e consideram a mente ou a vida como a única realidade fundamental, não possuem uma base suficientemente ampla para sua aceitação. Tal preocupação constituída de concentração exclusiva pode conduzir a um exame minucioso e proveitoso que lance muita luz sobre a mente e a vida, mas não pode resultar numa solução total do problema. Pode ser mesmo que uma concentração exclusiva ou predominante sobre o ser subliminar, considerando a existência superficial como um mero sistema de símbolos para expressar sua realidade única, pudesse lançar uma poderosa luz sobre o subliminar e seus processos, assim como estender imensamente os poderes do ser humano, mas isto não seria por si mesmo uma solução integral ou nos levaria com êxito ao conhecimento integral da Realidade. Em nossa visão, o Espírito, o Si é a realidade fundamental da existência; todavia, uma concentração exclusiva nessa realidade fundamental, com a exclusão de toda a realidade da mente, da vida ou da matéria, exceto como uma imposição ao Si ou como sonhos insubstanciais lançados pelo Espírito, poderia ser útil para uma realização espiritual independente e radical, mas não para uma solução integral e válida da verdade da existência cósmica e individual.
Para isto, o conhecimento integral deve ser um conhecimento de todos os aspectos da existência, tanto separadamente quanto na relação de cada um com todos os outros e na relação de todos com a verdade do Espírito. Nossa condição atual é um estado de ignorância e de busca multifacetada; ela busca pela verdade de todas as coisas, porém – como é evidente a partir da insistência e da variedade das especulações da mente humana quanto à Verdade fundamental que explica todas as outras, a Realidade na base de todas as coisas – a verdade fundamental das coisas, sua realidade básica deve ser encontrada em algum Real ao mesmo tempo fundamental e universal; é isto que, uma vez descoberto, deve abarcar e explicar tudo – pois “Quando Isto for conhecido, tudo será conhecido”: o Real fundamental deve necessariamente ser e conter a verdade de toda existência, a verdade do indivíduo, a verdade do universo, a verdade de tudo o que existe além do universo. A mente, ao buscar por tal Realidade e testar cada coisa a partir da matéria para descobrir se não poderia ser Isto, não procedeu por uma intuição errônea. Tudo que é necessário é conduzir a investigação até o fim e testar até os graus mais elevados e extremos da experiência.
Mas, visto que é a partir da ignorância que avançamos para o conhecimento, nós teríamos que descobrir primeiramente a natureza secreta e a extensão total da ignorância. Se observarmos essa ignorância na qual normalmente vivemos pela própria circunstância de nossa existência separativa num universo material, espacial e temporal, vemos que em seu aspecto mais obscuro ela possui, seja de que direção a examinemos ou nos aproximemos dela, o caráter de uma ignorância multiforme. Nós somos ignorantes do Absoluto que é a origem de todo ser e de todo devir; consideramos fatos parciais do ser e relações temporais do devir como a verdade total da existência – eis a primeira ignorância, a ignorância original. Somos ignorantes do Si não-espacial, intemporal, imóvel e imutável; vemos a constante mobilidade e mutação do devir cósmico no tempo e no espaço como a verdade completa da existência – esta é a segunda, a ignorância cósmica. Somos ignorantes de nosso si universal, da existência cósmica, da consciência cósmica, de nossa unidade infinita com todo ser e todo devir; consideramos nossa mentalidade, vitalidade e corporalidade, limitadas e egoísticas, como nosso eu verdadeiro, e tudo o que não seja isto, como não-eu – esta é a terceira, a ignorância egoística. Somos ignorantes de nosso eterno devir no tempo; consideramos esta pequena vida num breve espaço de tempo, num ínfimo campo do espaço, como nosso princípio, meio e fim – esta é a quarta, a ignorância temporal. Mesmo dentro deste curto devir temporal, somos ignorantes de nosso vasto e complexo ser, daquilo em nós que é supraconsciente, subconsciente, intraconsciente, circunconsciente em relação ao nosso devir de superfície; consideramos esse devir superficial, com sua pequena seleção de experiências abertamente mentalizadas, como a totalidade de nossa existência – eis a quinta ignorância, a psicológica. Somos ignorantes da verdadeira constituição de nosso devir; consideramos a mente ou a vida ou o corpo ou uma combinação de dois deles ou dos três como nosso verdadeiro princípio ou a explicação completa do que somos, perdendo de vista aquilo que os constitui e determina por sua presença oculta e está destinado, por seu surgimento, a determinar soberanamente suas operações – eis a sexta ignorância, a constitucional. Como resultado de todas essas ignorâncias, nós perdemos o verdadeiro conhecimento, domínio e deleite de nossa vida no mundo; somos ignorantes em nosso pensamento, vontade, sensações e ações, damos respostas erradas ou imperfeitas a cada passo e em cada aspecto aos questionamentos do mundo, vagamos num labirinto de erros e desejos, lutas e fracassos, dor e prazer, pecados e tropeços, seguimos uma tortuosa vereda, andamos às cegas em busca de um objetivo mutável – eis a sétima, a ignorância prática.
Nossa concepção da ignorância determinará necessariamente nossa concepção do conhecimento e determinará, portanto, uma vez que nossa vida é a ignorância que ao mesmo nega e busca o conhecimento, a meta do esforço humano e o propósito do trabalho cósmico. Dessa forma, conhecimento integral significará a anulação da ignorância septiforme por meio da descoberta daquilo que ela não percebe e ignora, uma septiforme auto-revelação no interior de nossa consciência: significa o conhecimento do Absoluto como a origem de todas as coisas; o conhecimento do Si, do Espírito, do Ser e do cosmo como devir do Si, o devir do Ser, uma manifestação do Espírito; o conhecimento do mundo como um só conosco na consciência de nosso verdadeiro si, cancelando desse modo a nossa separação dele por meio da idéia e da vida separativa do ego; o conhecimento da entidade psíquica e de sua persistência imortal no tempo, além da morte e da existência terrestre; o conhecimento de nossa existência maior e interior por trás da superfície; o conhecimento da mente, da vida e do corpo em sua verdadeira relação com o si interior e o ser espiritual supraconsciente e supramental acima deles; o conhecimento, por fim, da verdadeira harmonia e do verdadeiro uso de nosso pensamento, vontade e ação, e uma mudança de toda a nossa natureza numa expressão consciente da verdade do Espírito, do Si, da Divindade, da Realidade espiritual integral.
Todavia, não se trata de um conhecimento intelectual que possa ser aprendido e completado em nosso presente molde de consciência; ele deve ser uma experiência, um tornar-se, uma mudança da consciência, uma mudança do ser. Isto introduz o caráter evolucionário do Devir e o fato de que nossa ignorância mental é apenas um estágio em nossa evolução. O conhecimento integral, portanto, pode vir somente por meio de uma evolução de nosso ser e de nossa natureza, e tal coisa pareceria significar um vagaroso processo no tempo, tal como o que acompanhou as outras transformações evolucionárias. Mas, como que contrariando esta inferência, há o fato de que a evolução agora tornou-se consciente e seu método e seus passos não precisam ter inteiramente o mesmo caráter que tinham quando o processo era subconsciente. O conhecimento integral, visto que ele deve ser o resultado de uma mudança da consciência, pode ser conquistado por um processo no qual nossa vontade e esforço desempenham uma parte, no qual eles podem descobrir e aplicar seus próprios estágios e métodos: seu crescimento em nós pode processar-se por meio de uma auto-transformação consciente.

                                                      (The Life Divine - II – Tenth Edition[Facsimile] – 1977 – Pgs. 651-656)

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     ...Deus existe em Si mesmo e não em virtude do cosmo ou do homem, ao passo que o homem e o cosmo existem em virtude de Deus e não em si mesmos, exceto na medida em que seu ser é uno com o ser de Deus. Mas, ainda assim, eles são uma manifestação do poder de Deus e mesmo em Sua existência eterna, a realidade espiritual de ambos deve, de algum modo, estar presente ou implícita, porquanto, de outro modo, não haveria nenhuma possibilidade de sua manifestação ou, manifestados, eles não teriam nenhum significado. O que aparece aqui como homem é um ser individual do Divino; o Divino estendido na multiplicidade é o Si de todas as existências individuais. Além do mais, é através do conhecimento de si e do mundo que o homem alcança o conhecimento de Deus e ele não pode obtê-lo de outra maneira. Não é rejeitando a manifestação de Deus, mas rejeitando sua própria ignorância dela e os resultados dessa ignorância, que ele pode melhor elevar e oferecer a totalidade de seu ser, sua consciência, sua energia e sua alegria de ser à Divina Existência.  (The Life Divine-II – Ch.17 - Tenth Edition[Fac.] – 1977 – Pgs.690/91)

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     Porém, não se permite que a verdade espiritual e o verdadeiro propósito de seu ser apareçam senão numa fase tardia de sua jornada: pois o papel inicial e preparatório do homem nos degraus evolucionários da natureza é afirmar, tornar distinta e rica, possuir de modo firme, poderoso e completo sua própria individualidade. Como conseqüência, ele tem de se ocupar no início principalmente com o seu próprio ego. Nessa fase egoística de sua evolução, o mundo e os outros são menos importantes para ele do que ele próprio, são na verdade importantes apenas como auxílios e ocasiões para sua auto-afirmação. Deus também é menos importante para ele nesse estágio do que ele é para si mesmo, e, portanto, nas formações mais primitivas, nos níveis mais inferiores do desenvolvimento religioso, Deus ou os deuses são tratados como se existissem para o homem, como instrumentos supremos para a satisfação de seus desejos, seus auxiliadores na tarefa de conseguir que o mundo no qual ele vive satisfaça suas necessidades, desejos e ambições. Esse desenvolvimento egoístico primário, com todos os seus pecados, violências e cruezas, não deve de forma alguma ser considerado, em seu próprio lugar, como um mal ou um erro da natureza; ele é necessário para a tarefa inicial do homem, a descoberta de sua própria individualidade e sua perfeita liberação do subconsciente mais profundo, no qual o indivíduo é subjugado pela consciência massiva do mundo e está inteiramente sujeito às operações mecânicas da natureza. O homem, como indivíduo, tem de afirmar, de diferenciar sua personalidade contra o pano de fundo da natureza, ser poderosamente ele mesmo, desenvolver todas as suas capacidades humanas de força, conhecimento e fruição a fim de poder direcioná-las para a natureza e para o mundo com crescente domínio e força; seu egoísmo auto-discriminador lhe é dado como um meio para este propósito primário. Enquanto não tenha desenvolvido dessa forma sua individualidade, sua personalidade, sua capacidade separada, ele não pode estar apto para o trabalho maior que se acha diante dele ou ter êxito em dirigir suas faculdades para metas mais elevadas, mais amplas e mais divinas. Ele deve afirmar-se a si mesmo na ignorância antes que possa aperfeiçoar-se no conhecimento.   (The Life Divine-II – Ch.17 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 691/92)

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O ego foi inventado pela natureza para que o indivíduo pudesse separar-se da inconsciência ou da subconsciência da massa e tornar-se uma mente vivente, um poder-de-vida, uma alma, um espírito independente, adaptando-se ao mundo ao seu redor sem estar submerso nele e separadamente inexistente e ineficaz. Pois o indivíduo é, na verdade, parte do ser cósmico, mas é também algo mais: ele é uma alma que desceu da Transcendência. Ele não pode manifestar isto de início, por estar muito próximo da inconsciência cósmica, e por não estar próximo o bastante da Supraconsciência original; ele deve conhecer-se como o ego mental e vital antes que possa conhecer-se como alma ou espírito.
Contudo, encontrar sua individualidade egoística não é conhecer a si mesmo; o verdadeiro indivíduo espiritual não é o ego mental, o ego vital e o ego físico: de maneira predominante, este primeiro movimento é um trabalho de vontade, de poder, de auto-realização egoística e, apenas de forma secundária, de conhecimento. Portanto, deve chegar o momento em que o homem deve olhar além da obscura superfície de seu ser egoístico e tentar conhecer-se a si mesmo; ele deve dispor-se a encontrar o homem real: sem isto, ele permaneceria estagnado na educação primária da natureza e jamais avançaria para seus ensinamentos mais profundos e mais amplos; por maiores que fossem seu conhecimento e eficiência prática, ele seria apenas um pouco superior aos animais. Em primeiro lugar, ele deve voltar os olhos para sua própria psicologia e distinguir seus elementos naturais – o ego, a mente e seus instrumentos: a vida e o corpo – até que descubra que toda a sua existência necessita de uma explicação, que não seja o trabalho dos elementos naturais, e de um propósito para suas atividades, que não seja uma auto-afirmação e satisfação egoísticas.   (The Life Divine-II – Ch.17 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 694/95)

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     ...Existe por trás um segredo mais profundo que justifica sua individualidade e sua demanda, o segredo da individualidade espiritual e eterna, o Purusha.
É por causa da Pessoa espiritual, a Divindade no indivíduo, que a perfeição ou a libertação – a salvação, como é chamada no ocidente – tem de ser individual e não coletiva; pois qualquer que seja a perfeição da coletividade a ser buscada, ela só pode ser obtida pela perfeição dos indivíduos que a constituem. É pelo fato de o indivíduo ser Isto, que conhecer-se a si mesmo, é sua grande necessidade. Em sua completa auto-entrega e submissão ao Supremo, é o indivíduo que encontra seu perfeito auto-conhecimento em uma perfeita auto-oferenda. Na abolição do ego mental, vital e físico, e mesmo do ego espiritual, é o Indivíduo sem forma e ilimitado que possui a paz e a alegria de sua própria libertação em sua própria infinitude. Na experiência de que ele não é nada nem ninguém, ou tudo e todos, ou o Uno que está além de todas as coisas e é absoluto, é o Brahman no indivíduo que efetua essa estupenda fusão ou essa maravilhosa união, Yoga, de sua eterna unidade de ser com sua vasta e oniabarcante ou com sua suprema e todo-transcendente unidade de existência eterna. Ultrapassar o ego é imperativo, mas não se pode ultrapassa o si – exceto descobrindo-o supremamente, universalmente. Pois o si não é o ego; ele é um só com o Todo e o Uno e encontrando-o, é o Todo e o Uno que descobrimos em nós mesmos: a contradição, a separação desaparece, mas o si, a realidade espiritual permanece, unificada com o Uno e o Todo por meio desse libertador desaparecimento.
O auto-conhecimento superior começa, portanto, tão logo o homem haja superado sua preocupação com a relação da natureza e de Deus com o seu ser superficial, seu eu mais aparente. Um passo é saber que esta vida não é tudo, chegar à concepção de sua própria eternidade temporal, realizar, tornar-se concretamente consciente dessa permanência subjetiva que é chamada de imortalidade da alma. Quando ele toma conhecimento de que existem estados além do material e vidas atrás de si e diante de si, de qualquer maneira, uma preexistência e uma existência subseqüente, ele está a caminho de eliminar sua ignorância temporal, ampliando-se além dos momentos imediatos do tempo para tomar posse de sua própria eternidade. Outro passo adiante é aprender que seu estado consciente de superfície é tão somente uma pequena parte de seu ser, começar a explorar o abismo do inconsciente e as profundezas do subconsciente e do subliminar e escalar as alturas do supraconsciente; assim começa ele a remover sua ignorância psicológica. Um terceiro passo é descobrir que há algo nele diferente de sua mente, vida e corpo instrumentais, não apenas uma alma individual e imortal que se desenvolve sem cessar e sustenta sua natureza, mas um si, um espírito eterno e imutável, e aprender quais são as categorias de seu ser espiritual, até que ele descubra que tudo nele é uma expressão do espírito e discrimine o elo entre sua existência inferior e sua existência superior; assim ele começa a remover sua ignorância constitucional. Ao descobrir o si e o espírito, ele descobre Deus; descobre que existe um Si além do temporal: ele alcança a visão deste Si na consciência cósmica como a Realidade divina por trás da natureza e deste mundo de criaturas; sua mente se abre para o pensamento ou o sentido do Absoluto de quem o si, o indivíduo e o cosmo são as muitas faces; as ignorâncias cósmica, egoística e original começam a perder a rigidez de seu domínio sobre ele. Em seu esforço para adaptar sua existência ao molde desse crescente auto-conhecimento, toda a sua visão e razão de vida, pensamento e ação são progressivamente modificados e transformados; sua ignorância prática de si mesmo, de sua natureza e do objetivo de sua existência diminui: ele começou a trilhar o caminho que conduz da falsidade e do sofrimento de uma existência limitada e parcial à perfeita posse e deleite de uma existência verdadeira e completa.
(The Life Divine-II – Ch.17 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 696/97)

 

Capítulo XIX

 

                                                                                                  “Sete degraus possui o território da ignorância,
sete degraus possui o território do conhecimento.”

Mahopanishad (V.1)

 

     Toda evolução é, essencialmente, uma ascensão da força de consciência no ser manifestado a fim de que ele possa ser elevado para a intensidade maior do que é ainda imanifestado, da matéria para a vida, da vida para a mente, da mente para o espírito. Este deve ser o método de nosso crescimento a partir de uma manifestação mental rumo a uma manifestação espiritual e supramental, para além de uma humanidade ainda semi-animal em direção a um ser divino e a uma vida divina. É preciso conquistar uma nova altitude, amplitude, profundeza e sutileza espirituais, uma nova intensidade espiritual de nossa consciência, de sua substância, de sua força, de sua sensibilidade, uma elevação, expansão e plasticidade, uma capacidade integral de nosso ser, e uma ascensão da mente e de tudo o que se acha abaixo da mente para esta existência mais ampla. Numa transformação futura, o caráter da evolução, o princípio do processo evolucionário, embora modificado, não mudará fundamentalmente mas, numa escala mais vasta e num movimento liberado, continuará em proporções magníficas. Uma mudança para uma consciência ou estado de ser superior constitui não somente o objetivo e processo integrais da religião, de toda ascese superior, do Yoga, mas é também a verdadeira tendência de nossa própria vida, o propósito secreto encontrado na totalidade de seu labor. O princípio de vida em nós busca constantemente confirmar-se e aperfeiçoar-se nos planos da mente, da vitalidade e do corpo, os quais ele já possui; mas é também automaticamente compelido a ir além e transformar estas conquistas em meios para que o espírito consciente se revele na natureza. Se é simplesmente alguma parte de nós mesmos, o intelecto, o coração, a vontade ou a alma-de-desejo vital, que, insatisfeita com sua própria imperfeição e com o mundo, se esforça por abandoná-lo rumo a uma altitude maior da existência, contentando-se em deixar o resto da natureza cuidar de si mesmo ou perecer, então tal resultado de transformação total não viria a acontecer – ou, pelo menos, não viria a acontecer aqui. Porém, não é este o propósito integral de nossa existência; existe em nós um labor da natureza que visa ascender com tudo que existe em nós rumo a um princípio de ser superior ao que ela até agora desenvolveu aqui, mas não é inteiramente sua vontade nessa ascensão destruir-se a fim de que esse princípio superior seja exclusivamente afirmado pela rejeição e extinção da natureza. Elevar a força da consciência até que ela passe de uma instrumentação mental, vital e física para a essência e o poder do espírito é a coisa indispensável, mas este não é o único objetivo ou tudo que deve ser realizado.
Nossa aspiração deve ser viver numa nova altitude em todo o nosso ser: não há necessidade, a fim de alcançarmos essa altura, de abandonar nossas partes dinâmicas no estofo indeterminado da natureza e estabelecer-nos, por meio dessa libertadora perda, numa venturosa quietude do Espírito; isto sempre pode ser feito e traz um grande repouso e liberdade, mas o que a própria natureza espera de nós é que a totalidade daquilo que somos se eleve para a consciência espiritual e se torne um poder manifestado e múltiplo do espírito. Uma transformação integral é o objetivo integral do Ser na natureza; este é o sentido inerente de seu impulso universal de auto-transcendência. É por esta razão que o processo da natureza não está confinado à elevação de si mesma para um novo princípio; a nova altitude não é um cume estreito e intenso, ela traz consigo uma ampliação e estabelece um campo de vida mais vasto no qual o poder do novo princípio possa ter liberdade de ação e espaço suficientes para o seu surgimento. Esta ação de elevação e expansão não está confinada apenas à máxima amplitude possível na atividade do novo princípio; ela inclui a ascensão daquilo que é inferior rumo aos valores superiores: a vida divina ou espiritual não só assumirá em si mesma a vida mental, vital e física transformadas e espiritualizadas, mas dará a elas uma atividade muito mais ampla e mais completa do que lhes era possível enquanto viviam em seu próprio nível. Nossa existência mental, vital e física não precisa ser destruída por nossa auto-transcendência, nem é ela diminuída e prejudicada ao ser espiritualizada; ela pode se tornar e de fato se torna muito mais rica, mais ampla, mais poderosa e mais perfeita: em sua transformação divina ela se abre a possibilidades que em sua condição não-espiritualizada não seriam praticáveis ou imagináveis.
Esta evolução, este processo de desenvolvimento ascendente, ampliação e integração, é em sua natureza um crescimento e uma ascensão da ignorância sétupla ao conhecimento integral. O ponto crucial dessa ignorância é a constitucional; ela se traduz por uma ignorância múltipla do verdadeiro caráter de nosso devir e pela falta de consciência da totalidade de nosso ser, cuja explicação é uma limitação devida ao plano que habitamos e ao atual princípio predominante de nossa natureza. O plano que habitamos é o plano da matéria; o princípio predominante em nossa natureza no presente momento é a inteligência mental associada à mente sensorial, a qual depende da matéria como seu suporte e pedestal. Conseqüentemente, a preocupação da inteligência mental e de seus poderes com a existência material, da forma como lhe é mostrada através dos sentidos, e com a vida, assim como ela foi formulada num compromisso entre a vida e a matéria, é o caráter distintivo da ignorância constitucional. Este materialismo natural ou vitalismo materializado, esta nossa fixação aos estágios iniciais, é uma forma de auto-restrição que limita o âmbito de nossa existência e é muito insistente no ser humano. É uma necessidade primária de sua existência física, mas posteriormente ela é forjada, por uma ignorância primitiva, em cadeias que impedem cada passo seu para o alto: o esforço para crescer além dessa limitação da totalidade, do poder e da verdade do espírito causada pela inteligência mental materializada e para além dessa sujeição da alma à natureza material, é o primeiro passo em direção a um real progresso de nossa humanidade. Pois nossa ignorância não é integral; é uma limitação da consciência – não se trata da completa nescidade que caracteriza esta mesma ignorância nas existências puramente materiais, aquelas que têm na matéria não apenas o seu plano, mas o seu princípio dominante. É um conhecimento parcial, limitador, divisor e, em grande escala, falsificador; devemos sair dessa limitação e falsificação e nos desenvolver rumo à verdade de nosso ser espiritual.
Esta preocupação com a vida e a matéria é correta e necessária a princípio, porque o primeiro passo que o homem deve dar é conhecer e possuir esta existência física da melhor maneira possível, aplicando o pensamento e a inteligência à experiência que sua mente sensorial lhe proporciona; porém, este é apenas um passo preliminar e, se nos detivermos ali, não teremos feito nenhum progresso real: continuamos no lugar em que estávamos e conquistamos apenas um espaço físico mais amplo onde nos movermos e um poder maior para que nossa mente estabeleça um conhecimento relativo e um domínio insuficiente e precário, e para que nosso desejo vital mova as coisas por toda parte, numa atividade febril e ruidosa, em meio ao aglomerado das forças e existências físicas. A máxima ampliação de um conhecimento físico objetivo, mesmo que este abarque os mais distantes sistemas solares e as mais profundas camadas da terra e do oceano, assim como os poderes mais sutis da substância e da energia material, não constitui um ganho essencial para nós, não é a coisa mais importante e necessária que devemos adquirir. É por esta razão que o evangelho do materialismo, apesar dos deslumbrantes triunfos da ciência física, prova ser sempre, no fim das contas, um credo vão e inútil, e é por isso também que a própria ciência física com todas as suas conquistas, embora possa promover o bem-estar, não pode jamais proporcionar a felicidade e a plenitude do ser para a raça humana. Nossa verdadeira felicidade reside no verdadeiro crescimento de todo o nosso ser, numa vitória que abarque o âmbito total de nossa existência, no domínio tanto da natureza interna quanto da externa e mais do que isto, tanto da natureza oculta quanto da natureza visível; nossa verdadeira plenitude não é obtida descrevendo-se círculos mais amplos no plano onde iniciamos, mas através da transcendência. É por este motivo que, depois de estabelecida a primeira fundação na vida e na matéria, devemos elevar nossa força de consciência, aprofundá-la, ampliá-la e sutilizá-la; em primeiro lugar, precisamos liberar nossos eus mentais e penetrar numa atividade mais livre, mais refinada e mais nobre de nossa existência mental: pois o mental, muito mais que o físico, é nossa verdadeira existência, porque mesmo em nossa natureza instrumental ou expressiva somos, de modo predominante, mente e não matéria, seres muito mais mentais do que físicos. Este desenvolvimento no pleno ser mental é o primeiro movimento de transição rumo à perfeição e à liberdade humanas; isto, de fato, não aperfeiçoa nem libera a alma, mas nos eleva um degrau além da absorção material e vital e prepara nossa emancipação do domínio da ignorância.
Nosso ganho em nos tornarmos seres mentais mais perfeitos é realizarmos a possibilidade de uma existência, consciência, força, felicidade e deleite-de-ser mais sutis, mais elevados e mais amplos; quanto mais ascendermos na escala da mente, maior é o poder que alcançamos de tudo isto: nossa consciência mental adquire para si própria ao mesmo tempo mais visão e poder, mais sutileza e plasticidade, e nos tornamos capazes de abarcar mais da própria existência vital e física, de conhecê-las melhor, de usá-las melhor, de dar-lhes valores mais nobres, um âmbito mais abrangente, uma ação mais sublimada – uma gama mais extensa e resultados mais elevados. No poder característico de sua natureza, o homem é um ser mental, mas nos primeiros degraus de seu emergir, ele corresponde mais a um animal mentalizado, preocupado como o animal com sua existência física; ele emprega sua mente para os usos, interesses e desejos da vida e do corpo, como sua serva e instrumento, não ainda como sua soberana e mestra.             À medida que ele se desenvolve na mente e à proporção que a mente afirma sua individualidade e independência contra a tirania da vida e da matéria, é que ele cresce em estatura. Por um lado, através de sua emancipação, a mente controla e ilumina a vida e o físico; por outro, os objetivos, ocupações e buscas puramente mentais adquirem valor. Liberta de um controle e preocupação inferiores, a mente introduz na vida um domínio, uma elevação, um refinamento, um equilíbrio e uma harmonia mais perfeitos; os movimentos vitais e físicos são orientados e postos em ordem, transformados mesmo até onde seja possível pela ação mental; eles são ensinados a ser instrumentos da razão e obedientes a uma vontade esclarecida, a uma consciência ética e a uma inteligência estética: quanto mais isto puder ser realizado, mais a raça se torna verdadeiramente humana, uma raça de seres mentais.
Tal foi a percepção da vida posta em evidência pelos pensadores gregos, e é uma vívida florescência na luz solar deste ideal que confere tão grande fascínio à vida e à cultura helênicas. Em épocas posteriores esta percepção foi perdida e, quando retornou, fê-lo muito diminuída, misturada com elementos mais túrbidos: a perturbação de um ideal espiritual compreendido imperfeitamente pelo entendimento e de modo algum realizado na vida prática, mas presente com suas influências mentais e morais positivas e negativas, e em contraste com isto a pressão de um anseio vital desordenado e dominante, incapaz de obter um movimento livre e satisfeito consigo mesmo, tornaram-se obstáculos para a soberania da mente e a harmonia da vida, para a realização de sua beleza e equilíbrio. Conquistou-se uma abertura para ideais superiores, para um âmbito maior da vida, mas os elementos de um novo idealismo foram postos em ação apenas como uma influência, não foram capazes de dominá-la e transformá-la, e, finalmente, o esforço espiritual, dessa forma mal compreendido e irrealizado, foi posto de lado: seus efeitos morais permaneceram, porém, desprovidos do elemento espiritual que os sustentava, definharam até a ineficácia; o anelo vital, auxiliado por um imenso desenvolvimento da inteligência física, tornou-se a preocupação da raça. Um impressionante incremento de um certo tipo de conhecimento e eficiência foi o primeiro resultado; a mais recente conseqüência tem sido um perigoso estado de má saúde espiritual e uma vasta desordem.
Pois a mente por si mesma não basta; mesmo sua mais ampla operação de inteligência cria somente uma meia-luz limitada. Um conhecimento mental superficial do universo físico é um guia ainda mais imperfeito; isto poderia ser o suficiente para um animal pensante, mas não para uma raça de seres mentais em meio ao labor de uma evolução espiritual. Até mesmo a verdade das coisas físicas não pode ser inteiramente conhecida, nem o uso correto de nossa existência material pode ser descoberto apenas pela ciência física e por um conhecimento externo ou tornado possível tão somente pelo domínio de processos físicos e mecânicos: para conhecer e utilizar corretamente, devemos ir além da verdade do fenômeno e do processo físico, é preciso conhecer o que está no interior e por trás disso. Pois não somos apenas mentes corporificadas; existe um ser espiritual, um princípio espiritual, um plano espiritual da natureza. É em direção a isto que devemos elevar nossa força de consciência, é por meio disto que devemos ampliar ao máximo, mesmo universalmente e infinitamente, o alcance de nosso ser e nosso campo de ação, nos apossarmos por meio disto de nossa vida inferior e usá-la para propósitos maiores e num plano mais vasto, na luz da verdade espiritual da existência. Nosso labor mental e nossa luta pela vida não podem chegar a qualquer solução até que tenhamos transcendido a obsedante condução de uma natureza inferior, integrado nosso ser natural no ser e na consciência, aprendido a utilizar nossos instrumentos naturais por meio da força e para a alegria do Espírito. Só então a ignorância constitucional da qual sofremos, a ignorância da real estrutura de nossa existência, pode transformar-se num conhecimento verdadeiro e efetivo de nosso ser e de nosso devir. Pois espírito é o que somos – usando a mente de forma predominante no momento, e de modo subordinado a vida e o corpo, tendo a matéria como nosso campo original, mas não como nosso único campo de experiência; isto, porém, se limita apenas ao presente. Nossa imperfeita instrumentação mental não é a última palavra de nossas possibilidades; pois existem em nós, latentes, ou invisível e imperfeitamente ativos, outros princípios além da mente e próximos da natureza espiritual, há poderes mais diretos e instrumentos mais luminosos, há um estado mais elevado, há extensões de ação dinâmica maiores do que aquelas que pertencem à nossa atual existência física, vital e mental. Tudo isto pode se tornar nossa própria condição, parte de nosso ser, podem ser princípios, poderes e instrumentos de nossa própria natureza ampliada. Mas, para isto, não basta estarmos satisfeitos com uma vaga ou extática ascensão ao espírito ou uma exaltação informe através do toque de suas infinitudes; o princípio desses elementos deve desenvolver-se, assim como a vida se desenvolveu, assim como a mente evoluiu e organizou sua própria instrumentação, sua própria satisfação. Então possuiremos a verdadeira constituição de nosso ser e teremos conquistado a Ignorância.
A vitória sobre nossa ignorância constitucional não pode ser completa nem tornar-se integralmente dinâmica se não tivermos eliminado nossa ignorância psicológica; pois elas estão intimamente ligadas. A ignorância psicológica consiste numa limitação de nosso auto-conhecimento a esta pequena ondulação ou fluxo superficial do nosso ser, a qual é o eu consciente do estado de vigília. Esta parte de nosso ser é uma corrente original de movimentos informes ou semi-formulados conduzidos numa continuidade automática, sustentados e unificados pela memória superficial ativa e pela consciência subjacente em seu fluxo de momento a momento do tempo, organizados e interpretados pela razão e pela inteligência que observa e participa. Há por trás disso uma existência e uma energia ocultas de nosso ser secreto, sem as quais a consciência e a atividade de superfície não poderiam ter existido ou operado. Só uma certa atividade se torna visível na matéria – inconsciente no exterior das coisas, que é tudo que conhecemos; pois a Consciência que habita na matéria é secreta, subliminar, não manifesta na forma inconsciente e na energia nela contida: em nós, porém, a consciência tornou-se parcialmente manifesta, parcialmente desperta. Mas essa consciência é limitada e imperfeita; ela é restringida por sua auto-limitação habitual e move-se num círculo restrito, exceto quando há vislumbres, intimações ou algo emerge do segredo interior que rompe os limites da formação ou flui além deles ou amplia seu círculo. Contudo, essas visitas ocasionais não podem ampliar-nos muito além de nossas presentes capacidades, não bastam para revolucionar nossa condição. Isto só pode ser feito se pudermos trazer para ela as luzes e os poderes superiores latentes em nosso ser e colocá-los em atividade de modo consciente e normal; para isto, devemos ser capazes de trazê-los livremente daquelas esferas de nosso ser nas quais eles são nativos, mas que, atualmente, são para nós subconscientes ou então secretamente intraconscientes e circunconscientes, ou ainda supraconscientes. Ou – o algo mais que também é possível – devemos penetrar em nossas partes interiores e superiores por meio de um mergulho no interior ou de um aprofundamento disciplinado e trazer de volta conosco para a superfície seus segredos. Ou, realizando uma mudança ainda mais radical de nossa consciência, devemos aprender a viver no interior e não mais na superfície, e ser e agir a partir das profundezas interiores e de uma alma que se tornou soberana da natureza.
Esta parte que podemos chamar estritamente de subconsciente, por estar abaixo do nível da mente e da vida conscientes, inferior e obscura, abrange os elementos puramente físicos e vitais da constituição de nossa existência corpórea, não mentalizados, não observados e não controlados pela mente em sua atividade. Pode-se afirmar que ela inclui a silente consciência oculta, dinâmica mas não percebida por nós, que opera nas células, nos nervos e em toda a substância corporal, e regula seus processos de vida e suas respostas automáticas. Ela abrange também aquelas atividades mais inferiores da mente sensorial oculta que são mais operantes no animal e na vida vegetal; em nossa evolução, ultrapassamos a necessidade de uma ação ampla e organizadora desse elemento, mas ele permanece submerso e obscuramente ativo abaixo de nossa natureza consciente. Esta atividade obscura estende-se até um substrato mental secreto e velado no qual submergem as impressões passadas e tudo o que é rejeitado da mente superficial e ali permanecem dormentes, podendo elevar-se no sono ou em qualquer ausência da mente, assumindo a forma de sonhos, formas de ação ou sugestão mental mecânica, formas de irregularidade física ou perturbação nervosa, formas de morbidez, enfermidade, desequilíbrio. Normalmente, trazemos do subconsciente para a superfície tanto quanto nossa mente sensorial consciente e nossa inteligência necessitam para seus propósitos; fazendo-os emergir dessa maneira, não somos conscientes de sua natureza, origem, operação e não os compreendemos em seus próprios valores, mas através de uma tradução para os valores de nossa percepção e inteligência humana consciente. Mas as coisas que se elevam do subconsciente, seus efeitos sobre a mente e o corpo, são em sua maior parte automáticos, indesejados e involuntários; pois não temos nenhum conhecimento e, portanto, nenhum controle do subconsciente. É somente por uma experiência anormal para nós, mais comumente na doença ou em algum distúrbio do equilíbrio, que podemos nos tornar diretamente conscientes de alguma coisa nesse mundo silente – silente mas muito ativo – de nosso ser físico e de nossa vitalidade, ou virmos a perceber os movimentos secretos da mente mecânica e sub-humana física e vital que se encontra abaixo de nossa superfície – uma consciência que nos pertence mas parece não ser nossa, porque não é parte de nossa mentalidade conhecida. Isto e muito mais vive oculto no subconsciente.
Uma descida ao subconsciente não nos ajudaria a explorar essa região, pois isto nos mergulharia na incoerência ou no sono, num transe obscuro ou num torpor letárgico. Um exame mental minucioso ou uma introvisão pode nos proporcionar alguma idéia indireta e construtiva dessas atividades ocultas; mas é somente ao penetrarmos no subliminar ou ascendermos ao supraconsciente e de lá olharmos para baixo ou nos estendermos até essas profundezas obscuras, que podemos nos tornar diretamente e totalmente conscientes e ter o controle dos segredos de nossa natureza física, vital e mental subconsciente. Tal consciência e tal controle são da máxima importância. Pois o subconsciente é o Inconsciente no processo de tornar-se consciente; ele é o suporte e mesmo a raiz das partes inferiores de nosso ser e seus movimentos. Ele sustenta e fortalece tudo em nós que persiste e se recusa a mudar, a recorrência mecânica dos pensamentos ignorantes, a obstinação persistente dos sentimentos, sensações, impulsos, tendências, as incontroladas fixações do caráter. O animal em nós – e o infernal também – tem sua toca de refúgio na densa floresta da subconsciência. Penetrar ali, trazer a luz e estabelecer um controle, é indispensável para a completude de qualquer vida superior, para qualquer transformação integral da natureza.
A parte de nós que descrevemos como intraconsciente e circunconsciente é um elemento ainda mais potente e muito mais importante na constituição de nosso ser. Ele inclui a vasta ação de uma inteligência interior e de uma mente sensorial interna, de um ser vital interior e mesmo de um ser físico sutil interno, os quais sustentam e envolvem nossa consciência de vigília, e não são trazidos para a frente, mas são subliminares, na terminologia moderna. Porém, quando podemos entrar e explorar este ser oculto, descobrimos que os sentidos e a inteligência desperta são em sua maior parte uma seleção daquilo que secretamente somos ou podemos ser, uma edição exteriorizada e muito mutilada e vulgarizada de nosso ser real e oculto, ou uma projeção de suas profundezas. Nosso ser de superfície foi formado com este recurso subliminar por meio de uma evolução a partir do Inconsciente visando a utilidade de nossa presente vida mental e física sobre a terra; aquilo que se acha por trás é uma formação que serve de mediadora entre o Inconsciente e os planos mais vastos da Vida e da Mente, os quais foram criados através da descida involucionária e cuja pressão ajudou a produzir a evolução da mente e da vida na matéria. Nossas respostas superficiais à existência física têm por trás de si o suporte de uma atividade nessas partes veladas, são freqüentemente respostas dessas partes, modificadas por uma tradução mental superficial. Mas também, esta parte ampla de nossa mentalidade e vitalidade que não constitui uma resposta ao mundo externo, mas vive por si mesma ou se lança sobre a existência material para usá-la e possuí-la, nossa personalidade, é o resultado, a formulação amalgamada de poderes, influências e motivos que procedem dessas poderosas profundezas intraconscientes.
O subliminar estende-se também em uma consciência que nos envolve, através da qual ele recebe o impacto das correntes e dos circuitos de onda que se derramam sobre nós provindos das forças da Mente universal, da Vida universal e da Matéria sutil universal. Essas forças, despercebidas por nós na superfície, são percebidas e admitidas por nosso ser subliminar e transformadas em formações que podem afetar poderosamente nossa existência, sem que tomemos conhecimento disso. Se a parede que separa essa existência interior do ser externo fosse atravessada, poderíamos conhecer e lidar com as fontes de nossas presentes energias mentais e de nossa atividade vital, e seríamos capazes de controlá-las ao invés de sofrer suas conseqüências. Mas, embora grande parte disso possa ser conhecido dessa maneira, por meio de uma penetração e de um exame interior ou de uma comunicação mais livre, é somente quando nos dirigimos para o interior, por trás do véu da mente superficial, e vivemos no interior, na mente e na vida internas, e na alma ainda mais profunda de nosso ser, que podemos ser plenamente auto-conscientes – isto só é possível através dessa interiorização e da ascensão para um plano superior da mente, além daquele que nossa consciência de vigília habita. O resultado de tal vivência interior seria a ampliação e o aperfeiçoamento de nossa atual condição evolucionária, no momento tão dificultosa e truncada; todavia, uma evolução além desse estágio, só pode ocorrer quando nos tornarmos conscientes naquilo que é agora supraconsciente para nós, através de uma ascensão para as alturas nativas do Espírito.
Na supraconsciência, além de nosso atual nível de consciência, estão incluídos os planos superiores do ser mental bem como as alturas nativas do puro ser espiritual e supramental. O primeiro passo indispensável numa evolução ascendente seria elevar nossa força de consciência para aquelas partes superiores da mente, das quais já recebemos, mas sem conhecermos a origem, a maior parte de nossos movimentos mentais mais amplos, especialmente aqueles que estão dotados de um poder e de uma luz maiores, de natureza reveladora, inspiradora e intuitiva. Se a consciência conseguisse alcançar essas altitudes mentais, essas amplidões, ou manter-se e centralizar-se ali, algo da presença e do poder direto do Espírito, algo mesmo – embora secundário ou indireto – da Supramente poderia receber uma primeira expressão, poderia fazer-se inicialmente manifesto, poderia intervir no governo de nosso ser inferior e ajudar a modificá-lo. Posteriormente, pela força dessa consciência remodelada, o curso de nossa evolução poderia elevar-se por meio de uma ascensão mais sublime e, ultrapassando o mental, alcançar a suprema natureza espiritual e supramental. É possível, sem uma ascensão efetiva a esses planos mentais atualmente supraconscientes, ou sem uma vivência constante ou permanente neles, através de uma abertura a eles, por meio da recepção de seu conhecimento e de suas influências, eliminar até certo ponto nossa ignorância psicológica e constitucional; é possível estarmos conscientes de nós mesmos como seres espirituais e espiritualizarmos, embora imperfeitamente, nossa vida e nossa consciência normal e humana. Poderia haver uma comunicação e uma orientação conscientes por parte dessa mentalidade mais vasta e mais luminosa, e uma recepção de suas forças iluminadoras e transformadoras. Isto se encontra ao alcance do ser humano altamente desenvolvido ou espiritualmente desperto; porém, tal coisa não seria mais do que um estágio preliminar. Para alcançar um auto-conhecimento integral, uma consciência e um poder de ser completos, faz-se necessária a ascensão para além do plano de nossa mente normal. Tal ascensão é presentemente possível numa supraconsciência absorta; contudo, isto poderia levar apenas a uma entrada nos níveis superiores em estado de transe imóvel ou extático. Se o controle desse ser espiritual mais elevado deve ser trazido para nossa vida consciente, é preciso que haja uma elevação e uma ampliação conscientes a imensas extensões de um novo ser, de uma nova consciência, de novas potencialidades de ação, uma tomada – tão integral quanto possível – de nosso ser atual, de nossa consciência e de nossas atividades, e uma transmutação deles em valores divinos que efetuariam uma transfiguração de nossa existência humana. Pois, onde quer que uma transição radical deva ser realizada, há sempre um tríplice movimento – ascensão, ampliação do campo e da base e integração – no método de auto-transcendência da Natureza.
Qualquer mudança evolucionária como essa deve necessariamente estar associada a uma rejeição de nossa presente e estreita ignorância temporal. Pois nós agora vivemos não apenas de momento a momento do tempo, mas toda a nossa visão está limitada à vida no corpo atual entre um simples nascimento e a morte. Assim como nossa visão não avança mais que isso no passado, assim também ela não se estende além disso no futuro; dessa maneira, estamos limitados por nossa memória e nossa consciência da vida presente numa formação corpórea transitória. Porém, essa limitação de nossa consciência temporal é intimamente dependente da preocupação da mente com o plano e a vida materiais nos quais ela está atuando no momento atual; a limitação não é uma lei do espírito mas uma disposição temporária necessária para um trabalho inicial e planejado de nossa natureza manifestada. Se a preocupação é relaxada ou deixada de lado, e uma expansão da mente é efetuada, se uma abertura para o subliminar e o supraconsciente, para o ser interno e o ser superior, é criada, é possível perceber nossa existência permanente no tempo, assim como nossa existência eterna além dele. Isto é essencial, se quisermos conseguir nosso auto-conhecimento dentro da perspectiva correta; pois, no presente, toda a nossa consciência e ação estão corrompidas por um erro de perspectiva espiritual que nos impede de ver em sua proporção e relação corretas a natureza, o propósito e as condições de nosso ser. A crença na imortalidade tornou-se um ponto tão vital na maioria das religiões porque ela é uma necessidade auto-evidente, se estamos destinados a nos elevar acima da identificação com o corpo e sua preocupação com o plano material. Porém, uma crença não é o suficiente para alterar radicalmente este erro de perspectiva: o verdadeiro auto-conhecimento de nosso ser no tempo só pode surgir em nós quando vivermos na consciência de nossa imortalidade; é preciso despertarmos para uma percepção concreta de nosso ser perpétuo no tempo e de nossa existência intemporal.
Pois imortalidade, em seu sentido fundamental, não significa meramente algum tipo de sobrevivência pessoal à morte física; somos imortais em virtude da eternidade de nossa própria existência verdadeira sem princípio nem fim, além de toda a sucessão de nascimentos e mortes físicas através dos quais passamos, além das alternâncias de nossa existência neste e em outros mundos: a existência intemporal do espírito é a verdadeira imortalidade. Existe, sem dúvida, um significado secundário da palavra que possui sua verdade; pois, como corolário dessa verdadeira imortalidade, há uma continuidade perpétua de nossa existência e experiência temporais de vida para vida, de mundo para mundo, após a dissolução do corpo físico: mas esta é uma conseqüência natural de nossa intemporalidade, que se expressa aqui como a perpetuidade no Tempo eterno. A realização da imortalidade intemporal surge pelo conhecimento do si no Não-nascimento e no Não-devir e do espírito imutável em nosso interior: a realização da imortalidade no tempo nasce do conhecimento do si no nascimento e no devir, e é traduzida por uma percepção da identidade permanente da alma através de todas as mudanças de mente, vida e corpo; isto também não é uma simples sobrevivência, é a intemporalidade traduzida na manifestação do Tempo. Por meio da primeira realização nos tornamos livres da obscura sujeição à cadeia de nascimento e morte, este objetivo supremo de tantas disciplinas indianas; através da segunda realização somada à primeira, tornamo-nos capazes de possuir livremente, com um conhecimento correto, livre de ignorância e sem sermos aprisionados pela cadeia de nossas ações, as experiências do espírito em suas sucessões de eternidade temporal. Por si mesma, a realização da existência intemporal poderia não incluir a verdade dessa experiência do si permanente no Tempo eterno; a realização de sobrevivência à morte, por si mesma, poderia ainda admitir um início ou um fim para nossa existência. Mas, em qualquer das duas realizações, verdadeiramente consideradas como os dois lados de uma única verdade, existir conscientemente na eternidade e não no cativeiro das horas e da sucessão dos momentos, é a substância da mudança: existir dessa forma é uma primeira condição da consciência divina e da vida divina. Possuir e governar, a partir dessa eternidade interior do ser, o curso e o processo do devir é a segunda: a condição dinâmica, com a posse de si mesmo e o auto-domínio espiritual como seu resultado prático. Tais mudanças só são possíveis por meio de um recolhimento que nos afaste de nossa absorvente preocupação material – para isto não é necessário rejeitar ou desprezar a vida no corpo – e uma constante vivência nos planos interiores e superiores da mente e do espírito. Pois a elevação de nossa consciência para seu princípio espiritual é efetuada por meio da ascensão e do recuo para o interior – ambos os movimentos são essenciais –, saindo de nossa vida transitória de momento a momento rumo à vida eterna de nossa consciência imortal; mas, com isto, se produz também a ampliação do âmbito de nossa consciência e de seu campo de ação no tempo, e o domínio e o uso mais elevado de nossa existência mental, vital e corpórea. Surge assim um conhecimento de nosso ser, não mais como uma consciência dependente do corpo, mas como um espírito eterno que utiliza todos os mundos e todas as vidas para uma variada auto-experiência; percebemos que ele é uma entidade espiritual possuidora de uma vida psíquica que perpetuamente desenvolve suas atividades através de sucessivas existências físicas, um ser que determina o seu próprio devir. Neste conhecimento, que não é ideativo, mas sentido em nossa própria substância, torna-se possível viver, não como escravos de um impulso cármico cego, mas como senhores – sujeitos apenas ao Divino dentro de nós – de nosso ser e de nossa natureza.
Ao mesmo tempo, eliminamos a ignorância egoística; pois enquanto estejamos atados por ela em qualquer sentido, a vida divina deve ser inatingível ou imperfeita em sua auto-expressão. Pois o ego á uma falsificação de nossa verdadeira individualidade, através de uma limitadora auto-identificação da mesma com esta vida, esta mente e este corpo: é uma separação das outras almas que nos encerra em nossa própria experiência individual e nos impede de viver como o indivíduo universal; é uma separação de Deus, nosso Si supremo, que é o Si único em todas as existências e o Habitante divino dentro de nós. À medida que nossa consciência se transfere para as alturas, para as profundezas e as amplidões do espírito, o ego não pode mais sobreviver ali: ele é muito pequeno e frágil para subsistir naquelas vastidões e nelas se dissolve; pois ele existe por causa de seus limites e perece com a perda desses limites. O ser irrompe de seu aprisionamento na individualidade separada, torna-se universal, assume uma consciência cósmica na qual ele se identifica com o si e o espírito, a vida, a mente e o corpo de todos os seres. Ou ele ascende e emerge num cume supremo, na infinitude e na eternidade da auto-existência independente de sua existência cósmica ou individual. O ego desmorona, perdendo sua parede de separação, em meio à imensidão cósmica; ou se aniquila, incapaz de respirar nas alturas do éter espiritual. Se algo de seus movimentos permanece por causa do hábito da natureza, mesmo estes também se dissolvem e são substituídos por um novo tipo de visão, de sentimento e de ação pessoais-impessoais. Este desaparecimento do ego não traz consigo a destruição de nossa verdadeira individualidade, de nossa existência espiritual, pois esta foi sempre universal e una com a Transcendência; há, porém, uma transformação que substitui o ego separativo pelo Purusha, uma face e uma imagem consciente do ser universal, e um si e um poder do Divino Transcendente na Natureza cósmica.
Neste mesmo movimento, pelo próprio despertar no espírito, há uma dissolução da ignorância cósmica; pois obtemos o conhecimento de nós mesmos como nosso si imutável e intemporal possuindo a si mesmo no cosmo e além do cosmo: este conhecimento se torna a base do Jogo Divino no tempo, reconcilia o uno e os muitos, a unidade eterna e a eterna multiplicidade, re-une a alma com Deus e descobre o Divino no universo. É através desta realização que podemos nos aproximar do Absoluto como a origem de todas as circunstâncias e relações, possuir o mundo em nós mesmos numa amplitude máxima e numa dependência consciente de sua origem, e possuindo-o dessa maneira, podemos elevá-lo e realizar através dele os valores absolutos que convergem para o Absoluto. Se o nosso auto-conhecimento se torna dessa forma completo em todos os seus aspectos fundamentais, nossa ignorância prática, a qual em seu ponto extremo se apresenta como ação errônea, sofrimento, falsidade, erro e é a causa de todas as confusões e discórdias da vida, vai ceder lugar à vontade verdadeira desse auto-conhecimento, e seus valores falsos ou imperfeitos desaparecerão ante os valores divinos da verdadeira Consciência-Força e do Ananda. Para uma consciência, uma ação e uma existência verdadeiras, não no imperfeito sentido humano de nossas pequenas moralidades, mas no vasto e luminoso movimento de uma vivência divina, são estas as condições: união com Deus, unidade com todos os seres, uma vida governada e formada de dentro para fora, na qual a fonte de todo pensamento, vontade e ação será o Espírito atuando por meio da verdade e da lei divina, as quais não são estabelecidas e construídas pela mente da ignorância, mas são auto-existentes e espontâneas em sua auto-realização, não exatamente uma lei, senão a Verdade agindo em sua própria consciência e no processo livre, luminoso, plástico e automático de seu conhecimento.
Este parece ser o método e o resultado da evolução espiritual consciente; uma transformação da vida da ignorância na vida divina do espírito consciente da verdade, uma mudança do modo de ser mental para o modo de ser espiritual e supramental, uma expansão de si mesmo desde os sete tipos de ignorância rumo aos sete tipos de conhecimento. Essa transformação seria o completamento natural do processo ascendente da Natureza, à medida que ela eleva as forças da consciência de um princípio inferior para um princípio cada vez mais elevado, até que o mais alto, o princípio espiritual, se torne manifesto e dominante nela, eleve as existências cósmica e individual nos planos inferiores para sua verdade e transforme tudo isto numa manifestação consciente do Espírito. O verdadeiro indivíduo, o ser espiritual, emerge, individual e ao mesmo tempo universal; universal e ao mesmo tempo auto-transcendente: a vida não mais se assemelha a uma formação de elementos e uma ação do ser criadas pela ignorância separativa.

                                                      (The Life Divine-II – Ch.19 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 726/41)

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…O próprio Divino é a chave de seu enigma. Uma perfeita auto-expressão do Espírito é o objetivo de nossa existência terrestre. Isto não pode ser realizado se não tomamos consciência da Realidade Suprema; pois é apenas pelo toque do Absoluto que podemos alcançar nosso próprio absoluto. Mas isto também não pode ser feito com a exclusão da Realidade cósmica: devemos nos tornar universais, pois sem uma abertura para a universalidade, o indivíduo permanece incompleto. O indivíduo, separando-se do Todo para alcançar o Supremo, perde-se nas alturas supremas; incluindo em si mesmo a consciência cósmica, ele recupera a integralidade de seu ser e ainda mantém sua conquista da transcendência; ele a realiza e a si mesmo na totalidade cósmica. Uma realizada unidade do transcendente, do universal e do individual é uma condição indispensável para a plenitude do espírito auto-expressivo: pois o universo é o campo de sua totalidade de auto-expressão, ao passo que é através do indivíduo que seu auto-desenvolvimento evolucionário atinge seu ponto de perfeição. Mas isto não apenas supõe um ser real do indivíduo, mas a revelação de nossa eterna unidade secreta com o Supremo e com toda a existência cósmica. Em sua auto-integração a alma do indivíduo deve despertar para a universalidade e para a transcendência.

(The Life Divine, II – Ch.XVI –Pg.679)

 

A evolução no Conhecimento

     Uma evolução na Inconsciência é o início, uma evolução na Ignorância é o meio, mas o fim é a liberação do espírito em sua verdadeira consciência e uma evolução no Conhecimento.
(The Life Divine-II – Ch.18 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 703)


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     Nesse novo estágio o véu que foi lançado será erguido; a evolução se moverá a cada passo no poder da Consciência-Verdade, e suas progressivas determinações serão efetuadas por um Conhecimento consciente e não nas formas da Ignorância ou da Inconsciência.


                                                            (The Life Divine-II – Ch.27 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 967)
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     Este novo status seria na verdade uma inversão da presente lei da consciência e da vida humanas, pois ela inverteria todo o princípio da vida da Ignorância. Foi pelo deleite da Ignorância, por sua surpresa e aventura, pode-se dizer, que a alma desceu para a Inconsciência e assumiu o disfarce da matéria, foi pela aventura e pela alegria da criação e da descoberta, uma aventura do Espírito, uma aventura da mente, da vida e as arriscadas surpresas de suas atividades na matéria, pela descoberta e pela conquista do novo e do desconhecido; tudo isto constitui o empreendimento da vida e isto, ao que parece, cessaria com a eliminação da Ignorância. A vida do homem é formada de luz e trevas, de ganhos e perdas, de dificuldades e perigos, dos prazeres e das dores da Ignorância, um jogo de cores se movendo sobre o solo da neutralidade geral da matéria, que tem como fundamento a nescidade e a insensibilidade do Inconsciente. Para o ser vital comum, uma existência desprovida das reações de sucesso e frustração, alegria e sofrimento vitais, perigo e paixão, prazer e dor, das vicissitudes e incertezas do destino, da luta, da batalha e do esforço, da alegria na novidade, da surpresa e da criação projetando-se para dentro do desconhecido, poderia parecer vazia de variedade e, portanto, vazia de sabor vital. Qualquer tipo de vida que ultrapasse essas coisas tende a parecer-lhe como algo desinteressante e vazio, ou apresenta a imagem de uma imutável monotonia; a representação do paraíso por parte da mente humana é a incessante repetição de uma eterna insipidez. Todavia, tal concepção é um erro; pois entrar na consciência gnóstica seria entrar no Infinito. Ela seria uma auto-criação a manifestar o Infinito infinitamente na existência, e o interesse do Infinito é muito maior e mais multifacetado, assim como mais imperecivelmente maravilhoso, do que o interesse do finito. A evolução no Conhecimento seria uma manifestação mais bela e mais gloriosa, com novas perspectivas se desdobrando sem cessar, e também mais completa em todos os sentidos, do que qualquer evolução na Ignorância poderia ser. O deleite do Espírito é sempre novo, as formas de beleza que ele assume são inumeráveis, sua divindade é sempre jovem e o sabor de deleite, rasa, do Infinito é eterno e inexaurível. A manifestação gnóstica da vida seria mais plena e mais proveitosa, e seu interesse mais intenso do que o interesse criativo da Ignorância; ela seria um milagre constante, maior, mais feliz.

(The Life Divine-II – Ch.28 – Tenth Edition[Fac.] – 1977 – pgs. 1068/69)

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“Um caminho perfeito da Verdade surgiu
para nossa jornada à outra margem além das trevas.”

                                                                                                                           Rig-Veda, I.46.11



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